Paternidade e maternidade
A pessoa com quem as crianças querem estar no parque e a que não consegue manter a hora de dormir — e o que ela ensina sem dizer uma palavra.
As crianças adoram o Inconformista, e geralmente à primeira vista. Esse tipo realmente brinca — para valer, fisicamente, com envolvimento de verdade e não só supervisionando —, diz sim para coisas absurdas, trata a criança como boa companhia e não como obrigação, e não sente a menor vergonha em público.
O que ele acha difícil não é ser mãe ou pai. É a repetição, e criar filhos é, em grande parte, pura repetição.
Não se preocupe pelo fato de as crianças nunca ouvirem você; preocupe-se com o fato de que elas estão sempre olhando para você.
— Robert Fulghum
O que eles oferecem
Sentir que sua companhia é realmente apreciada. Esse tipo gosta da companhia dos filhos, e as crianças percebem isso com precisão absoluta. É uma experiência mais rara do que deveria ser, e faz mais pela base emocional de uma pessoa do que quase qualquer outra coisa.
Segurança física. O pai ou mãe Inconformista ensina a criança a fazer coisas — nadar, andar de bicicleta, escalar, consertar, arremessar — permitindo que ela tente, sem transmitir ansiedade enquanto isso acontece. Crianças criadas assim costumam ter uma desenvoltura incomum com o próprio corpo e partem do princípio de que desafios físicos são coisas que se aprende.
Calma em emergências reais. Sangue, um osso quebrado, uma crise de verdade: a reação é firme, imediata e útil. Crianças que crescem vendo isso aprendem que catástrofes são superáveis, o que nenhuma palavra de consolo consegue transmitir.
Nada é tabu. Esse tipo não se choca com facilidade, e um adolescente que traz um assunto alarmante para esse pai ou mãe recebe uma resposta direta em vez de pânico — e é por isso que continua trazendo coisas muito além da idade em que a maioria para.
Onde o bicho pega: a rotina
As partes interessantes de criar um filho são esporádicas e as partes necessárias são constantes, e o motor desse tipo funciona à base das primeiras.
Hora de dormir, hora de comer, dever de casa, a mesma conversa sobre os sapatos pela quadringentésima vez — tudo isso concorre com o que quer que esteja acontecendo no momento, e perde sempre. Lares de Inconformistas funcionam com frequência à base de improvisos de última hora e situações contornadas no sufoco, o que é divertido por um tempo, mas, ao longo dos anos, se torna muito pesado para a criança.
As crianças precisam mais de previsibilidade do que de emoção. Não porque a rotina seja virtuosa, mas porque uma estrutura consistente é a forma como um ser humano pequeno constrói um modelo funcional de um mundo seguro. Uma criança que não consegue prever o próprio ambiente gasta em vigilância uma energia que deveria estar indo para outro lugar.
O mecanismo que funciona aqui é externo, não interno: um alarme, uma tabela, uma parceria que assume a hora de dormir, uma rotina que acontece porque simplesmente acontece, e não porque alguém decidiu isso na hora. Esse tipo não vai gerar consistência à base de força de vontade e deveria parar de tentar.
Onde o bicho pega: o limite
Conflitos não incomodam esse tipo, o que faz parecer que impor limites seria fácil — mas não é.
A dificuldade é diferente: um Inconformista sustenta um limite com rigor na terça-feira e é totalmente flexível com a mesma coisa no sábado, porque a situação parecia diferente e esse tipo reage a situações. A criança não encara isso como flexibilidade. Ela encara como uma regra que depende do humor dos pais, o que é mais difícil de engolir do que uma regra rígida, e consideravelmente mais difícil do que uma regra consistente.
O outro padrão é a escalada. Esse tipo se sente confortável com o confronto e nem sempre percebe que uma criança que parou de discutir não foi convencida — ela foi subjugada, o que é um resultado diferente e ensina uma lição diferente.
O ponto cego desse tipo
As crianças estão sempre olhando, e esse tipo ensina pelo exemplo, querendo ou não.
A propensão a assumir riscos, a esquiva de qualquer sinceridade com humor, o jeito de contornar uma conversa difícil sem encará-la — tudo isso serve de modelo, tudo isso é absorvido, e nada disso é discutido. Filhos desse tipo frequentemente chegam à vida adulta tendo aprendido, sem que uma única palavra tenha sido dita, que se lida com os sentimentos mudando de assunto e que o risco não é algo que realmente se aplique a você.
A proteção aqui é dar nome aos bois em vez de tentar mudar quem você é. Admita em voz alta, de vez em quando, que você desconversa. Admita em voz alta que uma atitude arriscada foi uma péssima decisão, e conte quanto custou, em vez de narrar o fato como uma história engraçada. Crianças dão conta de pais que são imperfeitos e honestos a esse respeito; o que elas não conseguem fazer é decifrar uma lição que nunca foi nomeada.
O que os filhos dizem mais tarde
Duas coisas, e elas vêm juntas.
Que a infância foi incrivelmente divertida, que a presença deles era genuinamente apreciada e que seus pais eram capazes de fazer qualquer coisa. Adultos criados por Inconformistas dizem isso com verdadeiro carinho, e geralmente é verdade.
E que nunca sabiam o que esperar do dia, aprendendo desde cedo a ler o ambiente. Esse é o preço da inconsistência — e, ao contrário de quase tudo nesta análise, resolve-se com estrutura, e não com uma mudança de personalidade.
Algo para observar esta semana: escolha uma única rotina e torne-a inegociável por sete dias, inclusive nos dias em que não estiver com vontade. Repare como a criança relaxa.

